sexta-feira, 13 de março de 2026

'NR-1 é uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo'

Com a atualização da norma que amplia a responsabilidade das empresas sobre riscos psicossociais, como ansiedade, depressão e burnout, o papel da liderança passa por um novo teste

Se antes a liderança estava centrada principalmente em metas e resultados, agora vão precisar se atentar também a saúde mental da equipe

Se antes a liderança estava centrada principalmente em metas e resultados, agora vão precisar se atentar também a saúde mental da equipe

Publicado em 11 de março de 2026 às 13h59.

Última atualização em 12 de março de 2026 às 09h45.

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atualização da NR-1, norma que a partir de maio irá estabelecer diretrizes gerais de saúde e segurança no trabalho no Brasil, colocou um novo tema no centro da agenda das empresas: a gestão dos riscos psicossociais, como estresse crônico, sobrecarga e burnout.

Na prática, isso significa que a responsabilidade sobre a saúde mental dos trabalhadores não se limita mais a benefícios ou programas pontuais. Cada vez mais, ela passa pela forma como líderes conduzem suas equipes.

Em empresas que já avançam nesse caminho, o movimento começa pelo letramento emocional das lideranças.

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“Falar de risco psicossocial é falar de habilidade relacional, energia psíquica, qualidade das conversas, conflitos produtivos e dos silêncios organizacionais”, afirma a psicóloga organizacional Patricia Ansarah, fundadora do Instituto Internacional de Segurança Psicológica (IISP).

A formação de líderes que passa pelo upskilling

Na Swile, empresa francesa de benefícios corporativos presente no Brasil desde 2021, a estratégia também parte da ideia de que o cumprimento da NR-1 depende diretamente da preparação das lideranças.

A liderança tem um papel central na prevenção de riscos psicossociais e na construção de ambientes psicologicamente seguros”, afirma Josiane Lima, diretora de RH da Swile Brasil.

Para fortalecer essa frente, a empresa estruturou um modelo de desenvolvimento que conecta educação contínua, saúde mental e formação de líderes.

Entre as iniciativas está o acesso à plataforma Unico Skill, que oferece mais de 20 mil cursos e treinamentos, incluindo idiomas, especializações e pós-graduação.

A proposta é incentivar o protagonismo do funcionário na própria carreira, fator que, segundo a empresa, está diretamente relacionado ao engajamento e ao bem-estar no trabalho.

Já para os gestores, a companhia criou o programa upskilling, que reúne especialistas de diferentes áreas para encontros presenciais voltados ao desenvolvimento de lideranças.

Realizados duas vezes por ano em São Paulo, os encontros reúnem cerca de 40 líderes de oito estados e abordam temas como: escuta ativa, gestão emocional, prevenção do burnout e construção de ambientes psicologicamente seguros.

Cumprir a NR-1 passa pela capacidade da liderança de acolher, orientar e prevenir riscos psicossociais no dia a dia”, diz Lima.

Para 2026, a Swile ampliou sua estratégia de saúde mental com iniciativas voltadas ao autoconhecimento e ao acolhimento das equipes.

Entre as ações estão:

  • acesso à terapia para todos os 750 funcionários e líderes
  • programa de coaching executivo com dez sessões para lideranças

“A ideia é preparar gestores para lidar com situações sensíveis, como casos de burnout, e criar ambientes de trabalho mais saudáveis”, diz Lima.

Os reflexos aparecem nos indicadores internos: a empresa registra nota média de satisfação de 9,3 entre os funcionários, resultado que a companhia associa diretamente à qualidade da liderança.

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Josiane Lima, diretora de RH da Swile Brasil: “Cumprir a NR-1 passa pela capacidade da liderança de acolher, orientar e prevenir riscos psicossociais no dia a dia” (Swile Brasil/Divulgação)

Cultura e liderança como base da saúde mental

Na healthtech Alice, a preparação dos gestores para lidar com saúde mental é um tema que já faz parte da cultura organizacional há um tempo.

Segundo Sarita Vollnhofer, CHRO da Alice, a empresa realizou um mapeamento dos riscos psicossociais em parceria com a liderança, acompanhado de ações de comunicação, engajamento e devolutiva dos resultados.

“A preparação das lideranças não começou com a atualização da NR-1. Ela faz parte de um trabalho contínuo de gestão e cultura organizacional”, afirma.

A iniciativa se conecta a outras práticas internas da empresa, como treinamentos sobre vieses inconscientes, segurança psicológica, avaliações de performance e rituais claros de planejamento e definição de prioridades.

Além disso, a companhia mantém ações contínuas de saúde e bem-estar ao longo do ano, com incentivo para que líderes “walk the talk”, ou seja, sejam exemplo na prática.

"Conseguimos fortalecer ambientes de trabalho saudáveis a partir da forma como as equipes são geridas", diz.

Os resultados aparecem nos indicadores internos: a Alice registra 93% de engajamento entre colaboradores, 98% de orgulho em trabalhar na empresa e turnover voluntário de 14%.

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Sarita Vollnhofer, CHRO da Alice: "Conseguimos fortalecer ambientes de trabalho saudáveis a partir da forma como as equipes são geridas" (Alice/Divulgação)

A nova responsabilidade das lideranças

Com a atualização da NR-1Yara Leal Girasoleadvogada trabalhista, aponta que o papel do líder deve se transformar cada vez mais.

“A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental”, afirma.

Se antes a gestão estava centrada principalmente em metas e resultados, agora passa também pela capacidade de identificar sinais de adoecimento, criar espaços seguros de diálogo e equilibrar demandas e bem-estar das equipes.

Na prática, isso significa que a saúde mental deixou de ser apenas um tema de RH, e se tornou uma competência essencial da liderança moderna.

Veja também: ‘Como professor eu aprendi todas as características de liderança’, diz CEO da Nestlé Brasil

Os 5 caminhos que empresas estão adotando para preparar líderes para a nova NR-1

Com a atualização da NR-1 e a inclusão dos riscos psicossociais na agenda corporativa, essas empresas têm investido em novas estratégias de gestão para fortalecer o papel da liderança na promoção da saúde mental no trabalho. Em resumo, elas apostam nessas 5 iniciativas:

  1. Treinamento para identificar riscos psicossociais
    Programas de formação que ensinam gestores a reconhecer sinais de estresse crônico, burnout e sobrecarga nas equipes.
  2. Programas estruturados de desenvolvimento de liderança
    Trilhas de aprendizado, workshops e mentorias focadas em habilidades comportamentais como escuta ativa, gestão emocional e resolução de conflitos.
  3. Cultura de segurança psicológica
    Criação de ambientes onde funcionários se sintam seguros para expressar ideias, dificuldades e erros sem medo de punição.
  4. Mapeamento de riscos no ambiente de trabalho
    Diagnósticos internos para identificar fatores como pressão excessiva, conflitos ou falta de apoio, agora incluídos nos programas de gestão de riscos.
  5. Suporte à saúde mental dos próprios líderes
    Iniciativas como terapia, coaching executivo e programas de bem-estar voltados também para gestores.

Se antes a gestão estava centrada principalmente em metas e resultados, agora passa também pela capacidade de identificar sinais de adoecimento, criar espaços seguros de diálogo e equilibrar demandas e bem-estar das equipes.

Na prática, isso significa que a saúde mental deixou de ser apenas um tema de RH, e se tornou uma competência essencial da liderança moderna.

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