quarta-feira, 4 de março de 2026

Acordo tira maioridade penal da PEC da segurança para destravar votação

 

Negociação intermediada por Hugo Motta permite avanço da proposta relatada por Mendonça Filho ao retirar trecho considerado mais controverso

Por Cleber Lourenço

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 18/2025, que reorganiza a arquitetura institucional da segurança pública no país, deve avançar no plenário da Câmara após um acordo político que retirou do texto a discussão sobre a redução da maioridade penal e a realização de um plebiscito sobre o tema.

A negociação ocorreu nos bastidores da Câmara e envolveu o governo federal, o relator da proposta, deputado Mendonça Filho, e lideranças partidárias. O entendimento foi intermediado pelo presidente da Casa, Hugo Motta, com o objetivo de evitar que um dos pontos mais sensíveis do debate travasse a tramitação da PEC.

Pelo acordo, o governo não criará obstáculos à tramitação da proposta em plenário. Em contrapartida, o trecho que tratava da redução da maioridade penal será retirado do texto e discutido posteriormente em um projeto separado.

Interlocutores envolvidos nas negociações afirmam que a estratégia busca evitar que o governo seja associado a uma posição contrária a uma pauta tradicionalmente vinculada ao debate sobre segurança pública, ao mesmo tempo em que permite que a PEC avance sem carregar um tema que divide a base governista.

Reorganização do sistema de segurança

A PEC altera diversos dispositivos da Constituição e propõe uma reestruturação do sistema de segurança pública brasileiro. O relatório afirma que o crime organizado assumiu uma dimensão nacional e internacional, ultrapassando fronteiras estaduais e exigindo uma coordenação estratégica mais ampla do Estado.

Segundo o texto, a proposta busca fortalecer a capacidade da União de conduzir a política nacional de segurança pública, ao mesmo tempo em que preserva as competências dos estados e municípios.

O substitutivo apresentado pelo relator foi estruturado em quatro pilares principais: fortalecimento da política criminal, modernização da governança policial, reorganização do sistema prisional e criação de mecanismos de financiamento mais estáveis para a segurança pública.

Um dos pontos centrais da proposta é a criação de um regime jurídico especial para organizações criminosas consideradas de alta periculosidade. O texto prevê que a legislação poderá estabelecer medidas mais rigorosas, como restrições à progressão de regime, suspensão de benefícios penais e ampliação das possibilidades de confisco de bens ligados a atividades criminosas.

Outro eixo da proposta é a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), com previsão de atuação integrada entre União, estados e municípios, compartilhamento de informações e formação de forças-tarefa intergovernamentais.

O texto também prevê a possibilidade de criação de polícias municipais, organizadas em carreira e sujeitas a controle externo do Ministério Público, além de ampliar o papel da Polícia Federal no combate a organizações criminosas e milícias com atuação interestadual ou internacional.

Financiamento ainda em discussão

Apesar do avanço nas negociações políticas, o texto final apresentado na reunião de líderes realizada na tarde desta quarta-feira ainda não incorporava todas as modificações negociadas nas últimas horas. O movimento repete um padrão já visto em outras votações recentes na Câmara, como ocorreu com o chamado PL anti-facção, quando diferentes versões do texto foram sendo apresentadas até os momentos finais da deliberação em plenário.

Nos bastidores, parlamentares afirmam que a versão levada à reunião de líderes funcionou mais como um texto-base para a construção do acordo político, enquanto ajustes técnicos seguem sendo discutidos. A expectativa entre líderes partidários é que uma nova versão do relatório ainda seja apresentada antes da votação, incorporando mudanças que estão sendo finalizadas em diálogo com o Ministério da Fazenda. O principal deles diz respeito às regras de financiamento da política de segurança pública.

O relatório prevê a criação de mecanismos de financiamento mais estáveis, com recursos destinados ao Fundo Nacional de Segurança Pública e ao Fundo Penitenciário Nacional. Parte dessas receitas poderá vir de arrecadação de apostas e de valores confiscados de atividades criminosas.

Os detalhes finais sobre essas fontes de financiamento ainda estão sendo discutidos com o Ministério da Fazenda e devem ser apresentados antes da votação em plenário.

Com a retirada do trecho mais controverso e a construção de um acordo político em torno do texto principal, líderes da Câmara avaliam que a PEC reúne condições de avançar na pauta legislativa nos próximos dias.

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