Por Rogério Baldauf*
A segurança no trabalho está passando por uma transformação importante no Brasil, algo que estou sempre acompanhando de perto.
Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a ter vigência obrigatória em maio de 2026, fatores psicossociais, como estresse, metas abusivas, excesso de trabalho e ambientes organizacionais tóxicos, passam a integrar oficialmente o gestão de riscos ocupacionais (GRO).
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Na prática, isso representa uma mudança significativa na forma como as empresas precisam olhar para a segurança. A saúde mental deixa de ser um tema restrito às áreas de recursos humanos.
Ela passa a fazer parte da agenda estratégica de gestão de riscos, compliance e governança corporativa.
O cenário da segurança no trabalho no Brasil
Vale apontar que essa mudança acontece em um momento preocupante para o ambiente de trabalho no país.
Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa coordenada pelo Ministério Público do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, indicam que o Brasil registra mais de 740 mil acidentes de trabalho por ano.
As estatísticas também mostram que uma morte relacionada ao trabalho ocorre, em média, a cada 3,5 horas — “não há como fechar os olhos para isso”.
Além dos riscos físicos, os fatores emocionais e organizacionais vêm ganhando cada vez mais relevância no debate sobre segurança no trabalho.
Quero ressaltar uma pesquisa da consultoria Gallup, que aponta que 46% dos trabalhadores brasileiros relatam níveis elevados de estresse no trabalho.
Este é um indicador que mostra como as condições organizacionais podem afetar diretamente o bem-estar e a produtividade das equipes.
Desafios da saúde mental no trabalho no setor industrial
No setor industrial, esse cenário traz desafios adicionais. Ambientes de produção costumam operar sob forte pressão por produtividade, prazos e continuidade operacional.
Essa dinâmica pode aumentar o nível de estresse nas equipes e ampliar o risco de falhas humanas, que muitas vezes estão na origem de incidentes e acidentes.
Por isso, quando falamos hoje em segurança no trabalho, não estamos tratando apenas da prevenção de acidentes físicos.
A análise de riscos precisa considerar também fatores organizacionais e humanos que influenciam diretamente a segurança das operações e o bem-estar dos trabalhadores.
O impacto nos afastamentos e a urgência da NR-1
Os dados sobre afastamentos reforçam essa urgência. Informações do Instituto Nacional do Seguro Social indicam que os transtornos mentais e comportamentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho no país.
Apenas em 2024 foram concedidas cerca de 472 mil licenças médicas relacionadas a problemas de saúde mental no trabalho — mais que o dobro do registrado em 2022. Os números de 2025 ainda não foram divulgados.
Apesar do avanço das exigências regulatórias, muitas empresas ainda estão no início dessa jornada.
Um levantamento da consultoria Protiviti mostra que apenas 44% das organizações brasileiras afirmam já ter mapeado riscos de saúde mental no ambiente de trabalho.
Ao mesmo tempo, 68% ainda não tratam de forma estruturada questões como burnout e adoecimento emocional.
A construção de ambientes de trabalho sustentáveis
Esses números mostram que ainda existe um caminho importante a percorrer. A atualização da NR-1 tende a acelerar esse processo.
Ela amplia o foco tradicional da segurança no trabalho, historicamente concentrado em riscos físicos, para uma abordagem mais abrangente de gestão de riscos.
Essa abordagem deve considerar também fatores organizacionais, culturais e psicossociais. Essa mudança exige uma visão mais integrada da segurança.
Tecnologia, processos estruturados, análise de riscos e cultura de prevenção precisam caminhar juntos.
Quando as empresas adotam essa abordagem, conseguem aumentar a previsibilidade das operações, reduzir falhas e criar ambientes de trabalho mais seguros e sustentáveis.
A verdade é que segurança no trabalho não se resume a cumprir normas. Trata-se de construir ambientes onde as pessoas possam trabalhar com segurança física e psicológica.
Isso contribui de forma saudável para os resultados das organizações. Esse é um desafio que exige compromisso das lideranças e uma gestão de riscos ocupacionais cada vez mais estratégica no ambiente corporativo.
A minha experiência profissional me diz que esses cuidados têm que estar presentes o tempo todo, independentemente de novas regulações.
*Rogério Baldauf, diretor superintendente da Schmersal.