sábado, 22 de agosto de 2026

Novas regras para doação de sangue entram em vigor em todo o país

 


Amazonas|Do canal Record Manaus no YouTube

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O Ministério da Saúde atualizou as regras para a doação de sangue em todo o Brasil. As mudanças incluem a redução do período de espera após tatuagens, endoscopias e algumas vacinas, além de alterações nos critérios de triagem dos doadores. A reportagem explica o que muda e quem pode doar.


Novas regras para doação de sangue ampliam possibilidades para doadores no Brasil

A doação de sangue terá novas regras em todo o Brasil a partir de outubro de 2026. As mudanças foram estabelecidas pela Portaria GM/MS nº 11.685/2026, do Ministério da Saúde, e atualizam os critérios para avaliação dos doadores.

Uma das principais novidades é que doadores regulares poderão continuar doando mesmo depois dos 70 anos, desde que estejam saudáveis, sejam considerados aptos na avaliação clínica e respeitem os intervalos definidos pelo serviço de hemoterapia. Com isso, deixa de existir uma idade máxima para quem já possui histórico regular de doação.

Outra mudança importante envolve pessoas que fizeram tatuagem, maquiagem definitiva ou determinados procedimentos estéticos. Quando o procedimento for realizado em estabelecimento que cumpra as normas de segurança, a nova regra permite a doação após sete dias. Quando não for possível comprovar as condições de segurança do local, o prazo passa a ser de quatro meses.

Também foram reduzidos alguns períodos de espera. Para quem realizou endoscopia ou colonoscopia, por exemplo, o prazo passa de seis para quatro meses. No caso de cirurgia bariátrica, a doação poderá ser considerada após seis meses, desde que sejam atendidos os critérios clínicos.

As novas normas ainda atualizam critérios relacionados a algumas doenças e condições de saúde. Em determinados casos de câncer, por exemplo, pessoas que estejam curadas ou em remissão poderão ser avaliadas para doação após cinco anos do término do tratamento, embora alguns tipos de câncer continuem sendo impeditivos.

Além de ampliar as possibilidades de doação, a atualização busca aumentar a segurança de quem doa e de quem recebe o sangue. O novo regulamento também reforça a triagem e a rastreabilidade dos hemocomponentes. Entre as novidades está a ampliação da utilização do teste NAT Plus, que passa a incluir a detecção de malária na triagem obrigatória.

É importante destacar que as novas regras ainda não estão valendo neste momento. Os serviços de hemoterapia terão prazo para realizar as adaptações necessárias, e a nova regulamentação entra em vigor no final de setembro/início de outubro de 2026, conforme o cronograma estabelecido pela norma. Até lá, continuam valendo os critérios atuais.

Doar sangue é um ato de solidariedade que pode salvar vidas. Com a atualização das regras, o Ministério da Saúde busca permitir que mais pessoas aptas possam contribuir, sem abrir mão da segurança dos doadores e dos pacientes que dependem de transfusões.

Antes de doar, procure um hemocentro ou serviço de hemoterapia e faça a avaliação necessária.


Saúde mental no trabalho começa antes do adoecimento

 


Entre o silêncio e a explosão, existe um espaço que precisa ser aprendido: o da consciência sobre o que sentimos

Por
Angélica Banhara

 Atualizado


Estresse no trabalho
Estresse no trabalho Magnific

Durante muito tempo, falar de saúde mental no trabalho significava, quase sempre, falar do que acontecia depois que alguém adoecia. A pessoa se afastava, procurava ajuda, entrava em crise. Só então a empresa percebia que havia um problema. A discussão provocada pela NR-1 torna a gestão de riscos psicossociais uma exigência para as empresas brasileiras. Mas, como lembra o psicólogo Rossandro Klinjey, reconhecer o risco é apenas o começo. É aí que entra o letramento emocional.

— É sobre aprender a perceber e nomear o que sentimos antes de agirmos sobre o sentimento. Letramento emocional é uma espécie de alfabetização, não um talento. Ninguém nasce sabendo decifrar seus sentimentos e emoções. Na outra ponta, o analfabetismo emocional não é sentir demais: é não saber nomear o que sente — explica.

A diferença parece sutil, mas é enorme. Em um ambiente de trabalho, uma pessoa que não consegue reconhecer a própria frustração pode transformar uma cobrança em uma explosão. Outra pode engolir sucessivas situações de desconforto até o limite. Entre o silêncio e a explosão, existe um espaço que precisa ser aprendido: o da consciência sobre o que sentimos.

Segundo ele, o analfabetismo emocional também aparece nas relações profissionais.

— Nas empresas, as pessoas alternam entre dois extremos: engolem tudo ou explodem quando não aguentam mais. E há um agravante: muitas vezes, quem está no comando não percebe que está levando sua própria ansiedade para a equipe.

Para Klinjey, o líder é o principal fator de risco ou de proteção psicossocial. Um chefe pressionado, inseguro ou angustiado pode transformar sua tensão em cobranças excessivas, ironias ou reações desproporcionais. É uma imagem poderosa porque mostra que saúde mental não se resolve apenas com palestras, formulários ou programas bem desenhados no papel.

A norma cria uma obrigação, mas o letramento cria a capacidade.

Isso não significa transformar o chefe em terapeuta, nem atribuir à empresa toda a responsabilidade pela saúde mental dos funcionários. Ao contrário. Klinjey lembra que existe uma responsabilidade individual e outra relacionada ao ambiente em que vivemos e trabalhamos. A empresa precisa cuidar das condições que podem favorecer o sofrimento, enquanto cada pessoa também precisa desenvolver recursos para lidar com suas emoções.

O ponto de partida deve estar nas lideranças. Afinal, o comportamento de quem está no comando se espalha pela organização.

— Como o líder tem um efeito “metastático”, positivo ou negativo, o ideal é começar por eles, pois impactam muita gente. Mas o trabalho não pode parar aí. É importante ouvir também quem está na ponta, porque outros funcionários podem perceber sinais de sofrimento antes que eles apareçam em relatórios ou estatísticas.

Há ainda uma armadilha. O vocabulário da psicologia se popularizou, o que é positivo, mas nem sempre é utilizado corretamente. Nem toda cobrança é tóxica. Nem todo feedback é violência. Cumprir uma meta, entregar um relatório ou corrigir um erro faz parte da vida profissional. O letramento emocional também serve para diferenciar uma exigência legítima de uma agressão.

A grande contribuição do letramento emocional é criar espaço entre o que sentimos e o que fazemos. E, nas empresas, isso pode significar a diferença entre uma dificuldade que é percebida e conversada a tempo e um sofrimento que só se torna visível quando chega na forma de afastamento, pedido de demissão ou adoecimento.

A NR-1 ajuda a colocar o tema na agenda. Mas nenhuma norma, sozinha, muda a maneira como as pessoas se relacionam. Para isso, é preciso transformar obrigação em prática. E começar a entender que, antes de sermos cargos, metas ou funções, somos pessoas.

Próxima

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Câmara avança para autorizar porte de armas a vigilantes e empresários

 


Projetos ampliam concessão a empresários e MEIs, além de tratamento especial na prisão para vigilantes e gestores de segurança privada

Por Cleber Lourenço

Uma sequência de projetos em avanço na Câmara dos Deputados tenta ampliar para empresários e profissionais da segurança privada tratamentos historicamente associados às forças de segurança. As propostas abrem caminho para que empresários, microempreendedores individuais (MEIs) e determinados funcionários possam portar armas e buscam garantir a vigilantes, supervisores e gestores de segurança privada tratamento diferenciado caso sejam presos por crimes relacionados ao exercício da função.

As iniciativas tramitam separadamente, mas apontam na mesma direção: ampliar, categoria por categoria, o universo de pessoas submetidas a regras excepcionais relacionadas a armas e custódia. O movimento está concentrado na Comissão de Segurança Pública da Câmara, onde parlamentares ligados às forças policiais e à agenda armamentista vêm conduzindo projetos para aproximar profissionais privados do tratamento dispensado a agentes do Estado.

A própria comissão criou, em abril, uma subcomissão dedicada à segurança privada e aos bombeiros civis. Durante a instalação, o deputado Coronel Meira (PL-PE) deixou explícita essa aproximação ao classificar vigilantes, profissionais da segurança privada e bombeiros civis como integrantes da mesma “família da segurança pública”.

A comparação ajuda a revelar a lógica por trás das propostas. Embora exerçam atividades privadas e não tenham os mesmos deveres, poderes ou formas de controle impostos a policiais, essas categorias passaram a ser alvo de projetos que lhes concedem tratamentos especiais associados ao exercício da segurança pública.

A investida mais recente ocorreu nesta terça-feira (18), quando a Comissão de Segurança Pública aprovou um substitutivo ao PL 5.438/2025 que permite a concessão de porte de arma a empresários e MEIs.

O texto, apresentado pelo deputado Rodrigo da Zaeli (PL-MT) a uma proposta originalmente protocolada por Marcos Pollon (PL-MS), incorporou outros projetos sobre o assunto e ampliou o grupo de pessoas que poderá pedir autorização.

Além de empresários e microempreendedores, entram na lista responsáveis legais por empresas que trabalham com produtos controlados e empregados ou prepostos formalmente encarregados de guardar ou transportar dinheiro e mercadorias consideradas de alto valor comercial.

Na prática, o projeto transforma determinadas atividades empresariais em fundamento para uma autorização que a legislação brasileira trata como excepcional.

Isso não significa, porém, que qualquer pessoa com CNPJ passará automaticamente a andar armada.

O interessado terá de demonstrar efetiva necessidade decorrente de atividade profissional de risco, comprovar idoneidade, capacidade técnica, aptidão psicológica, residência fixa e vínculo com a empresa. A autorização terá validade de cinco anos.

O porte poderá ser utilizado no estabelecimento e no trajeto direto entre a residência e o trabalho. A proposta prevê o cancelamento em situações como consumo de álcool ou drogas, utilização ostensiva ou ameaçadora da arma, condenação definitiva por crime doloso ou perda do vínculo profissional que justificou a autorização.

Mesmo com essas limitações, o alcance pretendido durante a tramitação mostra até onde parte da comissão queria levar a flexibilização.

Um dos projetos incorporados ao texto, também apresentado por Marcos Pollon, previa permitir o porte a funcionários responsáveis por estoques, dinheiro ou valores superiores a apenas um salário mínimo. O substitutivo abandonou esse parâmetro e passou a falar genericamente em mercadorias de “alto valor comercial”.

A proposta ainda terá de passar pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ).

A votação desta semana não é um episódio isolado.

Em março, a mesma Comissão de Segurança Pública aprovou porte de arma para proprietários de lojas de armas e diretores de clubes de tiro. Na semana passada, o plenário da Câmara aprovou a concessão do porte a oficiais de Justiça, em votação simbólica que contou inclusive com orientação favorável do governo. A proposta seguiu para o Senado.

Outro projeto em análise na comissão pretende ampliar o porte para guardas municipais e vigilantes. Apresentado pelo deputado Gilvan da Federal (PL-ES), o texto recebeu parecer favorável, com substitutivo, de Capitão Alden (PL-BA).

O resultado é uma flexibilização construída aos poucos. Em vez de uma alteração geral que reabra de uma vez o debate sobre quem deve ter direito a portar armas no país, diferentes projetos acrescentam novas categorias ao regime de exceção.

Tratamento especial também na prisão

A segunda frente dessa movimentação vai além das armas.

O PL 1.880/2026, apresentado pelo deputado Delegado da Cunha (PP-SP), pretende incluir no Código de Processo Penal o direito a recolhimento em estabelecimento especial para vigilantes, vigilantes supervisores e gestores de segurança privada.

A proposta cria, portanto, um tratamento distinto para profissionais de empresas privadas em relação aos demais cidadãos submetidos à prisão.

O benefício não seria válido para qualquer crime. O texto exige que a infração tenha sido cometida no exercício da função ou em razão dela.

Ainda assim, o projeto amplia o grupo de pessoas para o qual a legislação reconheceria uma condição profissional como justificativa para tratamento diferenciado durante a custódia.

O relator é Capitão Alden, o mesmo parlamentar responsável pelo parecer favorável à proposta que amplia o porte de armas para vigilantes.

Nesse caso, existe uma peculiaridade: o Congresso tenta recuperar uma proteção que desapareceu recentemente da legislação.

A antiga Lei 7.102, de 1983, que regulamentava os vigilantes, previa prisão especial por atos decorrentes do exercício profissional. A norma foi revogada pelo Estatuto da Segurança Privada, sancionado em 2024, que reorganizou a regulamentação do setor e não reproduziu a garantia.

Em vez de manter a mudança feita há menos de dois anos, parlamentares passaram a apresentar propostas para devolver o tratamento diferenciado.

Um projeto protocolado ainda em setembro de 2024 buscava restabelecer a prisão especial para vigilantes e supervisores. A proposta de 2026 amplia esse alcance e inclui também os gestores de segurança privada.

Paralelamente, a Comissão de Segurança Pública aprovou em julho outro projeto para assegurar tratamento diferenciado a integrantes e ex-integrantes dos órgãos públicos de segurança presos. Nesse caso, o texto pretende mantê-los separados dos demais detentos mesmo depois de uma eventual condenação definitiva e admite prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica quando não houver estabelecimento adequado.

A tentativa de borrar a fronteira entre público e privado

O ponto comum das propostas aparece de maneira mais clara na articulação política desenvolvida dentro da própria Comissão de Segurança Pública.

Em abril, o colegiado instalou a Subcomissão Especial da Segurança Privada e Bombeiros Civis. Participaram da iniciativa deputados como Coronel Meira, Delegado da Cunha, Sargento Fahur (PSD-PR) e Capitão Alden.

Formalmente, o grupo foi criado para discutir direitos, garantias e valorização das categorias. Politicamente, porém, o discurso adotado na instalação mostrou uma tentativa de aproximar trabalhadores privados da estrutura estatal de segurança.

Foi naquele encontro que Coronel Meira colocou vigilantes, profissionais da segurança privada e bombeiros civis dentro da mesma “família da segurança pública”.

A expressão não é apenas retórica quando confrontada com os projetos que passaram a tramitar.

Delegado da Cunha, participante da instalação da subcomissão, é autor da proposta que concede tratamento especial na prisão aos profissionais privados. Capitão Alden, também envolvido na articulação, relata esse projeto e a proposta que amplia o porte para vigilantes.

A diferença entre os dois mundos, no entanto, permanece relevante. Policiais exercem poder de Estado, são submetidos a estruturas próprias de comando, controle e responsabilização e desempenham atribuições que não podem ser transferidas simplesmente a um cidadão armado ou a um funcionário de uma empresa de segurança.

Os projetos não entregam poder de polícia a empresários ou vigilantes. Mas, ao multiplicarem exceções para porte de armas e tratamentos diferenciados vinculados à atividade profissional, aproximam categorias privadas de prerrogativas tradicionalmente justificadas pelas condições particulares enfrentadas por agentes públicos de segurança.

É justamente essa aproximação que a comissão vem construindo de maneira fragmentada.

Empresários e MEIs entram pela porta do porte de armas. Vigilantes e gestores aparecem no tratamento especial em caso de prisão. Proprietários de lojas de armas e dirigentes de clubes de tiro já conseguiram aprovação na comissão. Oficiais de Justiça fizeram uma proposta semelhante avançar pelo plenário.

Nenhuma dessas medidas, isoladamente, transforma seus beneficiários em policiais. Vistas em conjunto, porém, elas revelam uma agenda para alargar sucessivamente o círculo de categorias que recebem tratamentos excepcionais ligados à segurança — enquanto a fronteira entre exercer uma atividade privada de risco e integrar efetivamente uma força pública se torna cada vez menos nítida no discurso político que sustenta essas propostas.