Casos de ansiedade, depressão e burnout afastaram 546 mil pessoas do trabalho em 2025, segundo o Ministério da Previdência. Empresas devem ficar atentas à atualização da NR-1, que passa a vigorar na terça
O Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais em 2025, o maior número da última década. Os dados, divulgados pelo Ministério da Previdência Social, mostram um aumento de 15% em relação ao ano anterior e revelam uma crise crescente de saúde mental entre trabalhadores brasileiros.
Ansiedade e depressão aparecem entre as principais causas de licenças concedidas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Somente os transtornos de ansiedade resultaram em mais de 166 mil afastamentos, enquanto os episódios depressivos ultrapassaram 126 mil casos em todo o país.
Diante do crescimento dos afastamentos, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que começa a vigorar na próxima terça (26), passou a ampliar ainda mais a discussão sobre saúde mental dentro das empresas. A norma, que estabelece diretrizes gerais sobre segurança e saúde no trabalho, agora inclui oficialmente os chamados riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, isso significa que fatores como assédio moral, excesso de cobrança, pressão psicológica, jornadas exaustivas e ambientes tóxicos passaram a ser reconhecidos como riscos ocupacionais que precisam ser identificados, monitorados e prevenidos pelas organizações.
Pressão
Especialistas apontam que o aumento dos casos está ligado à pressão no ambiente de trabalho, jornadas exaustivas, insegurança financeira e dificuldade em equilibrar vida pessoal e profissional. Entre os casos de afastamentos, estão histórias como a da professora Elilde Gomes, 52 anos, que se afastou após desenvolver problemas psicológicos relacionados à rotina profissional.
“Esses sintomas começaram a impactar minha vida profissional porque, mesmo tentando dar o meu melhor todos os dias, eu já estava emocionalmente muito abalada. Era um momento angustiante, e eu precisava esconder o que estava sentindo para conseguir continuar trabalhando normalmente com as crianças.”, relatou a professora.
O caso dela reflete uma realidade cada vez mais comum no país. Segundo os dados da Previdência Social, os transtornos mentais já representam o segundo maior motivo de afastamento do trabalho no Brasil, atrás apenas de doenças relacionadas à coluna.
Ambientes tóxicos
Para a psicóloga Carla Carina, 39 anos, o aumento dos casos de ansiedade e depressão entre trabalhadores está diretamente ligado às transformações nas relações de trabalho e à exposição constante a fatores de risco psicossociais.
“Hoje, existe uma exigência de performance muito intensa. As empresas privilegiam a produtividade, mas muitas vezes exigem resultados em um tempo desproporcional. Isso acaba se tornando um fator de risco para a saúde mental dos trabalhadores”, explicou.
A especialista também destaca que a insegurança profissional, os contratos instáveis, a terceirização e o medo constante de perder o emprego aumentam o desgaste emocional. Além disso, a hiperconectividade tem dificultado a separação entre vida pessoal e profissional.
“As pessoas não conseguem mais se desligar do trabalho. Existem demandas no celular, grupos de WhatsApp, e-mails e mensagens o tempo inteiro. Isso causa uma privação de descanso e uma exaustão mental contínua”, pontuou.
Outro fator importante apontado pela psicóloga são os impactos deixados pela pandemia, que alteraram drasticamente a relação das pessoas com o trabalho. “A pandemia trouxe insegurança, isolamento social e relações profissionais mais frágeis. Até hoje sentimos os efeitos desse período na saúde mental dos trabalhadores.”
Responsabilidade
Para o advogado Ricardo Varjal, 31 anos, a mudança com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa um avanço importante porque amplia a responsabilidade das empresas em relação ao bem-estar emocional dos trabalhadores.
Segundo ele, transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout podem ser reconhecidos legalmente como doenças ocupacionais quando houver comprovação de que o ambiente de trabalho contribuiu diretamente para o desenvolvimento ou agravamento da condição psicológica.
“Muitas vezes o adoecimento psicológico não acontece de forma imediata. É um processo gradual, o que dificulta estabelecer uma conexão direta entre a doença e o trabalho”, explicou. Mesmo assim, o advogado destaca que trabalhadores afastados por problemas de saúde mental possuem os mesmos direitos trabalhistas e previdenciários garantidos em outras situações de afastamento médico.
Além disso, quando fica comprovado que a empresa negligenciou condições adequadas de saúde e segurança, ela pode ser responsabilizada judicialmente. “Se houver comprovação de que as exigências, condições ou o ambiente de trabalho contribuíram para o adoecimento, a empresa pode ser condenada ao pagamento de indenizações por danos morais e existenciais”, afirmou.
Prevenção
Segundo especialistas, a atualização da NR-1 reforça a necessidade de as empresas desenvolverem mecanismos permanentes de prevenção, acompanhamento e gestão dos riscos psicossociais.
Algumas empresas já vêm se antecipando às mudanças trazidas pela NR-1. No Grupo Cornélio Brennand (GCB), por exemplo, a saúde mental faz parte da estratégia corporativa e das ações de ESG da companhia.
O grupo mantém o programa “Faz Bem”, que reúne iniciativas voltadas à saúde física, mental e emocional dos colaboradores. Entre as ações estão check-ins emocionais periódicos, suporte psicológico 24 horas para funcionários e familiares, triagem emocional nos exames ocupacionais e programas de ergonomia que incluem análise de riscos psicossociais nos ambientes de trabalho.
A empresa também implementou medidas de flexibilização da rotina, como modelo híbrido para áreas administrativas, day off no aniversário e iniciativas voltadas ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal.
Segundo o GCB, que possui cerca de 900 colaboradores distribuídos em diferentes estados do país, a atualização da NR-1 reforça uma agenda que já vinha sendo construída internamente, mas que agora exige ainda mais padronização na identificação dos riscos, rastreabilidade das informações e fortalecimento da governança corporativa relacionada à saúde mental.
A empresa afirma ainda que vem ampliando investimentos em ferramentas de monitoramento emocional, treinamento de lideranças e revisão de processos internos para adequação às novas exigências regulatórias.
Desafio
Para pesquisadores da área, a crise de saúde mental no país deixou de ser apenas um problema individual e passou a representar um desafio social, econômico e trabalhista.
Somente os custos com afastamentos relacionados à saúde mental geraram impacto estimado em R$ 3,5 bilhões aos cofres públicos em 2025.
Especialistas avaliam que a tendência é que a saúde mental deixe de ser tratada apenas como pauta de recursos humanos e passe a ocupar um papel estratégico dentro das empresas, especialmente diante do aumento expressivo dos afastamentos e das novas exigências previstas pela NR-1.



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