quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Lucas Bove defende a privatização da Fundação CASA, indignados servidores dão resposta ao mesmo

 




A recente declaração do deputado estadual Lucas Bove, feita durante participação no programa Pânico, defendendo a privatização da Fundação CASA, causou profunda indignação entre servidores do sistema socioeducativo e profissionais que atuam diretamente na execução das medidas aplicadas a adolescentes em conflito com a lei.

Ao afirmar que a instituição teria “10 mil servidores para 3 mil adolescentes”, o parlamentar apresenta um número que, além de questionável, é utilizado fora de qualquer contexto técnico, orçamentário ou operacional. A fala soa mais como um recorte político simplificado do que como uma análise responsável da política pública socioeducativa no Estado de São Paulo.

É preciso deixar claro: o sistema socioeducativo não se resume a uma simples conta matemática entre número de servidores e adolescentes atendidos. A estrutura envolve equipes multidisciplinares compostas por agentes socioeducativos, assistentes sociais, psicólogos, pedagogos, profissionais da saúde, equipes administrativas, manutenção, segurança, alimentação, transporte e setores responsáveis por programas pedagógicos e de reintegração social. Além disso, os servidores atuam em regime de plantão 24 horas por dia, inclusive finais de semana e feriados. Comparar números frios sem explicar a complexidade do funcionamento institucional é desinformar a sociedade.

Outro ponto preocupante é que críticas dessa magnitude exigem responsabilidade técnica. Defender a privatização de um sistema tão sensível demanda estudos sérios, análise de impacto orçamentário, avaliação jurídica, comparação com modelos já implementados em outros estados ou países e, principalmente, diálogo com quem está na linha de frente. Até o momento, não se apresentou estudo público detalhado que sustente a afirmação de ineficiência baseada apenas na proporção entre servidores e adolescentes.

Mais grave ainda é quando se observa que declarações desse tipo partem de alguém que, segundo relatos de servidores, sequer visitou centros socioeducativos para conhecer a realidade estrutural, os desafios de segurança, as dificuldades de ressocialização e o cotidiano operacional. Opinar sem vivenciar, sem ouvir trabalhadores e sem analisar dados concretos fragiliza o debate público.

A narrativa da privatização como solução mágica ignora experiências nacionais e internacionais que mostram que modelos privatizados em áreas sensíveis, como sistema prisional e socioeducativo, frequentemente enfrentam críticas relacionadas à redução de custos à custa da qualidade do atendimento, precarização do trabalho e conflitos éticos sobre a gestão de medidas restritivas de liberdade por empresas com fins lucrativos.

Além da controvérsia sobre a Fundação CASA, o deputado também enfrenta questionamentos institucionais, incluindo processo por quebra de decoro parlamentar e acusações de violência política de gênero. Esses fatos ampliam a necessidade de cautela e responsabilidade em suas declarações públicas, sobretudo quando envolvem políticas voltadas a adolescentes e profissionais que exercem função essencial ao Estado.

A Fundação CASA cumpre um papel constitucional e legal relevante dentro do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE), aplicando medidas determinadas pelo Poder Judiciário e promovendo ações pedagógicas e de reintegração social. O debate sobre aperfeiçoamento, modernização e melhorias é legítimo e necessário. O que não se pode aceitar é a simplificação populista de um tema complexo, baseada em números soltos e discursos generalistas.

Os servidores da instituição dedicam suas vidas profissionais a uma missão difícil: lidar com adolescentes em situação de vulnerabilidade, muitos oriundos de contextos de exclusão social, violência e abandono. Trabalham sob pressão, riscos constantes e grande responsabilidade institucional. Reduzir esse trabalho a uma conta superficial desconsidera a complexidade da função e desvaloriza milhares de trabalhadores.

Se há falhas, elas devem ser apontadas com responsabilidade. Se há necessidade de reforma, que se apresente projeto consistente. Mas qualquer proposta séria deve partir de diagnóstico técnico, transparência de dados, diálogo com especialistas e respeito aos profissionais.

O sistema socioeducativo não pode ser tratado como palanque ideológico. Ele exige compromisso com evidências, responsabilidade institucional e respeito aos servidores e à sociedade. O debate é válido. A desinformação, não.

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