quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Falta menos de quatro meses para NR-1 da saúde mental entrar em vigor; como empresas da Serra podem se adequar

 

De acordo com avaliação de entidades como a CIC de Caxias do Sul, muitos negócios já olhavam com atenção ao tema. Período de adaptação serviu para esclarecimentos sobre norma

Mari Kowalski / Divulgação
Psicóloga Helena Brochado dá sugestões sobre adaptação para atualização da NR-1.

Depois de ser postergada por um ano, a atualização da Norma Regulamentadora nº1 (NR-1) deve entrar em vigor em 26 de maio deste ano. A partir dela, empresas de pequeno, médio e grande porte, desde uma padaria até as grandes organizações, passam a ser obrigadas a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais no ambiente de trabalho.  Assim como as outras diretrizes, também cabe fiscalização e multa do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Ou seja, empresas da Serra têm um pouco menos de quatro meses para se adequar.

Novamente, a atualização da norma chega em um momento de atenção aos dados apresentados no país e no Estado. Em 2025, os afastamentos por ansiedade e depressão cresceram 15% no Brasil — salto de 470 mil para 546 mil. Já no RS, conforme o Ministério da Previdência Social, o crescimento foi de 24%, passando de 37 mil afastamentos por saúde mental em 2024 para cerca de 46,7 mil no ano passado. 

A gerência do MTE na Serra relembra a NR-1 sempre solicitou que os empregadores tivessem atenção com todos os tipos de riscos no trabalho. A atualização é uma forma de explicitar também os cuidados com os riscos psicossociais. 

A psicóloga e especialista em desenvolvimento de lideranças Helena Brochado aconselha que nesse momento, os gestores podem iniciar com um mapeamento dos riscos psicossociais. Os fatores de risco podem ser levantados com ações como pesquisas internas ou questionários.

 

— Em cima desses dados podemos construir um plano de ação, que é justamente o que o Ministério do Trabalho vai pedir das empresas. Este plano de ação não é individual. Ele é um plano de ação para a organização, que em cima do que já mapeou, está construindo ações para tornar o ambiente de trabalho mais saudável — detalha a especialista. 

Os fatores estarão incluídos no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) da empresa. A psicóloga lista situações como sobrecarga de trabalho, metas abusivas, assédio, liderança tóxica e ambientes hostis. 

Dentre ações importantes, a especialista menciona a preparação de lideranças e uma escuta ativa para os funcionários. Uma ferramenta já adotada por muitas empresas, por exemplo, são canais de denúncia seguros para casos de assédio. 

— É preciso preparar líderes, mapear riscos psicossociais reais, ouvir as pessoas e transformar isso em um plano de ação consistente. Sem esse preparo, a empresa fica vulnerável à fiscalização e ao adoecimento das equipes — comentou. 

Para a psicóloga, a atualização da NR-1 também é uma forma de dar luz a um assunto cada vez mais presente no mundo corporativo. Helena percebe que não é uma situação apenas do Brasil, mas a preocupação com a saúde mental no local de trabalho é global: 

— Falar sobre saúde mental é falar sobre negócio. As pessoas estão adoecendo, as pessoas boas que trabalham, que são comprometidas, estão sensíveis com essa questão de saúde mental, seja porque estamos passando por um mundo que está extremamente acelerado na vida pessoal, seja porque as demandas da empresa também estão passando por transformações. O fato é que a medida que as pessoas adoecem, a organização toda acaba sofrendo, porque aquele profissional que se afastou vai acabar sobrecarregando a equipe, que vai acabar sobrecarregando o gestor. A organização toda é impactada quando passamos por um momento, que é global, de um aumento de depressão e ansiedade.

Ações sugeridas para atualização da NR-1:

  • Estudo da norma: engaje lideranças, RH e segurança do trabalho no entendimento da exigência.
  • Formação de equipe multidisciplinar: inclua diversas áreas e, se possível, consultoria externa.
  • Mapeamento dos riscos psicossociais: identifique fatores como assédio, metas abusivas e falta de reconhecimento.
  • Diagnóstico organizacional: use pesquisas, entrevistas e grupos focais para ouvir os colaboradores.
  • Inventário de riscos: liste os riscos por área e seus impactos na saúde mental.

Empresas em Caxias com olhar sobre a saúde mental

Em Caxias do Sul, a avaliação é de que antes mesmo da alteração, empresas já olhavam atentamente para o tema. O vice-presidente de serviços da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC) de Caxias, André Zuco, analisa que com o anúncio da atualização houve um movimento grande em busca de esclarecimentos. 

A própria CIC promoveu eventos e conteúdos como podcast para tratar sobre o assunto. Zuco também relembra que entidades patronais contribuíram com ações com esse viés. 

— A prorrogação que teve de um ano para agora foi importante para que as empresas que ainda não estavam com o olhar mais atento para essa questão pudessem fazer as adaptações, as adequações, principalmente no seu no Programa de Segurança de Riscos, para que, quando efetivamente passe a vigorar essa norma, elas estejam todas adequadas. O que nós acompanhamos até dentro da entidade é que é um movimento muito grande de esclarecimento — analisou Zuco. 

Uma das principais dúvidas, como conta o representante da entidade, era sobre como funcionaria esse gerenciamento dos riscos. Como sublinhado por Zuco, ficou esclarecido para as empresas que o plano não é individual para cada funcionário, mas sim para o ambiente de trabalho. 

— É uma análise que não é feita na questão individual dos empregados, mas sim no ambiente de trabalho. No início havia muita confusão, no sentido de que as empresas teriam que olhar para cada empregado, nas suas questões de saúde mental, psicológicas, quando, na verdade, o trabalho que deve ser feito pela empresa é olhar o ambiente do trabalho — pontuou Zuco. 







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