Os coletores de lixo da cidade de Ribeirão Preto estão em greve. E essa paralisação não surgiu por acaso, nem por oportunismo, nem por capricho. Ela é resultado de anos de descaso, falta de transparência e desvalorização de uma categoria essencial para o funcionamento da cidade.
Independentemente de haver ou não sindicato à frente, o fato concreto é um só: há trabalhadores sendo prejudicados sistematicamente. Durante anos, aproximadamente R$ 50,00 foram descontados mensalmente dos salários desses coletores. Anos de desconto contínuo, sem clareza, sem explicação adequada, sem retorno visível. O que era esse valor? Para onde foi? Por que só agora isso veio à tona?
Quando o trabalhador descobre que foi lesado por tanto tempo, o sentimento não é apenas revolta — é traição. É a percepção de que, enquanto cumpre sua função com responsabilidade, alguém se aproveita do seu silêncio, da sua rotina pesada e da sua pouca visibilidade social.
Como se não bastasse, a proposta apresentada é um reajuste salarial de apenas 2%. Um percentual que não cobre a inflação, não acompanha o aumento do custo de vida e não reflete, em absolutamente nada, o esforço físico extremo e os riscos diários da função. Dois por cento não é valorização. É um número simbólico que ignora a realidade de quem sustenta suas famílias com um trabalho duro, pesado e muitas vezes invisível.
A situação do convênio médico aprofunda ainda mais essa injustiça. Os mesmos trabalhadores que lidam diariamente com resíduos, risco biológico, esforço repetitivo, acidentes e adoecimento físico e mental, muitas vezes não têm acesso digno à própria saúde. É contraditório, cruel e inaceitável que quem cuida da limpeza da cidade não tenha garantido o direito básico de cuidar de si.
A greve, nesse contexto, não é radicalismo. É último recurso. É o grito de quem tentou dialogar, tentou esperar, tentou confiar. Greves não acontecem porque trabalhadores querem parar — acontecem porque ninguém os escutou quando ainda estavam trabalhando.
Rapidamente surgem discursos prontos: tentam criminalizar a paralisação, jogar a população contra os trabalhadores, reduzir a luta a “interesses” ou “politização”. Mas raramente se fala do essencial: por que foi preciso chegar a esse ponto?
Com sindicato ou sem sindicato, a verdade permanece:
➡️ há descontos indevidos,
➡️ há proposta salarial insuficiente,
➡️ há falhas na assistência à saúde,
➡️ há outras demandas ignoradas.
Os coletores de lixo não pedem privilégios. Pedem respeito. Pedem transparência. Pedem condições mínimas de dignidade para continuar fazendo um trabalho que ninguém quer fazer, mas que todos dependem.
Cidade limpa não se constrói apenas com caminhões e discursos.
Constrói-se com valorização humana, justiça salarial e compromisso real com quem mantém tudo funcionando.
Quando o trabalhador para, a cidade sente.
Mas quando o trabalhador é explorado por anos, quem realmente parou foi o respeito.
A greve dos coletores de lixo de Ribeirão Preto é um alerta.
Ignorar esse alerta é escolher empurrar o problema para frente — até que ele volte ainda maior.
Porque quem limpa a cidade todos os dias merece mais do que migalhas, silêncio e descaso.

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