Trabalhadores dos Correios aprovaram na noite desta quinta-feira (10) uma paralisação por tempo indeterminado em todo o Brasil. A decisão unificada ocorre após o fracasso nas negociações salariais e agrava o cenário da estatal quevem enfrentando seguidos prejuízos operacionais.
A mobilização foi articulada pela Federação Interestadual dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (Findect). O principal ponto de estrangulamento da negociação é o plano de saúde da categoria, benefício que a direção da companhia pretende alterar contra a vontade dos funcionários.
"A categoria buscou uma solução negociada, mas a empresa manteve sua posição em um tema considerado fundamental pelos trabalhadores", afirmou a Findect em nota oficial, que destacou ainda que o movimento "marca a nova fase da campanha salarial", que já viu greves anteriores como a de dezembro.
A adesão engloba sindicatos dos 26 estados e do Distrito Federal, além de diversas bases regionais estratégicas, como Campinas e Santos. Segundo Tony Sérgio, presidente do sindicato da categoria na Paraíba (Sintect-PB), o impacto nas agências é imediato: apenas os serviços administrativos internos estão em funcionamento. Até o momento, a direção nacional dos Correios não se pronunciou sobre um plano de contingência para as entregas.
Sem acordo com a estatal, os trabalhadores dos Correios anunciaram nesta sexta (11) uma greve em todo o Brasil, com prazo indeterminado (Imagem: Reprodução)
A paralisação cruza o caminho de uma profunda crise financeira na instituição. Os Correios já acumulam 15 trimestres consecutivos no vermelho, e um saldo negativo de R$ 5,6 bilhões apenas no primeiro semestre de 2026. Apesar de uma leve desaceleração no prejuízo do segundo trimestre, o buraco nas contas continua exigindo medidas de resgate.
Para ganhar fôlego, a companhia planeja captar um novo empréstimo de R$ 7 bilhões até o dia 15 de setembro, operado por um consórcio bancário que inclui nomes como Citibank, J.P. Morgan, Deutsche Bank e Banrisul. A manobra repete a estratégia adotada no final do ano passado, quando a estatal precisou levantar R$ 12 bilhões para manter as operações
Capitão Augusto, autor do projeto de lei - Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
O Projeto de Lei 3046/26 estabelece limites para o uso da rolagem contínua e automática, conhecida como infinite scroll, em redes sociais no Brasil. A regra se aplica a plataformas com mais de 2 milhões de usuários ativos por mês ou quando a rolagem de vídeos seja o recurso principal. A limitação pretende reduzir o uso compulsivo de redes sociais e evitar danos à saúde mental dos usuários.
Pela proposta, as plataformas deverão interromper automaticamente por 5 minutos a rolagem contínua após a exibição de 30 vídeos consecutivos em uma sessão. Cada gravação será contada individualmente assim que aparecer na tela, mesmo que seja assistida apenas de forma parcial.
Durante a interrupção, a tela exibirá uma mensagem sobre saúde mental e uso responsável da tecnologia. O texto do alerta seguirá diretrizes do Ministério da Saúde.
O projeto estabelece ainda que as plataformas exibam de maneira clara a quantidade de vídeos assistidos e quantos restam até a pausa obrigatória.
Período de conexão
O autor do projeto, deputado Capitão Augusto (PL-SP), ressalta que a ferramenta de rolagem infinita foi projetada para manter o usuário conectado por períodos prolongados, explorando vulnerabilidades psicológicas humanas para gerar receita publicitária às empresas.
"A regulação do infinite scroll é, em última análise, uma medida de saúde pública", justificou.
O projeto, por fim, obriga as plataformas a enviar, todo mês, um relatório com o tempo médio de uso dos usuários e a lista de vídeos assistidos.
Penalidades
A plataforma que não cumprir as regras pode receber punições que vão de advertência a multas de R$ 50 mil a R$ 5 milhões por infração.
Em caso de reincidência, a Justiça pode mandar suspender temporariamente a rolagem contínua (scroll infinito) ou até o funcionamento do aplicativo no Brasil.
O dinheiro das multas será usado pelo Fundo Nacional de Saúde para financiar ações de saúde mental relacionadas ao uso digital.
As plataformas terão o prazo de 180 dias para adaptar seus sistemas e interfaces às novas regras.
Próximas etapas
A proposta será analisada, em caráter conclusivo, pelas comissões de Saúde; de Defesa do Consumidor; de Comunicação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) da Câmara dos Deputados.
Para virar lei, o texto deve ser aprovado pela Câmara e pelo Senado.
Um grave episódio ocorrido em uma unidade do sistema socioeducativo do Rio de Janeiro expõe, mais uma vez, a vulnerabilidade dos Agentes de Segurança Socioeducativos que trabalham diariamente na linha de frente.
Segundo o relato, um adolescente teria furtado o celular de um agente na galeria. Ao perceber o ocorrido, o servidor solicitou a devolução do aparelho, que foi entregue. Entretanto, após uma discussão, o adolescente teria corrido até o banheiro utilizado pelos agentes, arrancado violentamente a louça do lavatório e quebrado o objeto, transformando os pedaços em instrumentos cortantes.
De posse de um caco de louça, o adolescente teria avançado contra o agente, que caiu no chão. O golpe teria sido direcionado à região da cabeça. Em uma reação de defesa, o servidor conseguiu proteger-se com a mão, sofrendo um corte profundo que precisou de oito pontos.
Na tentativa de conter o agressor, os dois entraram em luta corporal e acabaram rolando sobre diversos cacos espalhados pelo chão. O adolescente também sofreu cortes nos braços, mãos, pernas e pés. Outros agentes chegaram ao local e conseguiram realizar a contenção.
O servidor ferido foi posteriormente socorrido pela enfermagem e encaminhado ao Hospital Evandro Freire, na Ilha do Governador.
Após a ocorrência, estiveram presentes na unidade equipes da Inteligência do DEGASE e do GAR.
⚠️ UM ALERTA SOBRE A SEGURANÇA
O episódio levanta uma questão que precisa ser debatida com seriedade: a retirada do spray de pimenta dos Agentes de Segurança Socioeducativos fragilizou a capacidade de resposta diante de situações de agressão.
Quando o agente não dispõe de equipamentos não letais adequados para controlar uma situação de risco, aumenta a possibilidade de ocorrer o contato físico direto entre servidor e adolescente, colocando ambos em perigo.
Neste caso, o servidor precisou utilizar o próprio corpo para impedir que um objeto cortante atingisse sua cabeça.
E se o golpe tivesse atingido a cabeça?
Poderíamos estar falando de uma tragédia.
Equipamentos de menor potencial ofensivo, quando corretamente regulamentados, fornecidos, fiscalizados e utilizados por profissionais capacitados, podem ser importantes ferramentas para reduzir a necessidade do confronto físico e proteger servidores e adolescentes.
Por isso, fica o questionamento:
POR QUE RETIRAR DOS AGENTES UM EQUIPAMENTO QUE PODE EVITAR O CONTATO FÍSICO EM SITUAÇÕES DE RISCO?
A segurança das unidades socioeducativas não pode ser tratada com improviso.
Os Agentes de Segurança Socioeducativos trabalham 24 horas por dia diretamente com adolescentes em cumprimento de medida e precisam ter estrutura, treinamento, protocolos e equipamentos adequados para exercer sua função com segurança.
A categoria manifesta seu repúdio à retirada do spray de pimenta e cobra das autoridades responsáveis medidas concretas para fortalecer a segurança das unidades do DEGASE.
Não se trata de defender violência.
Trata-se de defender prevenção, segurança e preservação da vida.
Nossa solidariedade ao servidor ferido. Desejamos sua plena recuperação e esperamos que este episódio sirva de alerta para que medidas sejam adotadas antes que uma ocorrência termine em uma tragédia ainda maior.
SEGURANÇA PARA QUEM CUIDA DA SEGURANÇA.
AGENTES DE SEGURANÇA SOCIOEDUCATIVOS MERECEM RESPEITO, PROTEÇÃO E CONDIÇÕES SEGURAS DE TRABALHO.
Ministério Púlbico afirma que foram somadas 561 viagens e 267 horas de atividade privada realizada dentro da jornada de trabalho. Homem é servidor da Secretaria Municipal de Educação de Porto Nacional.
Por Shelen Assakawa, g1 Tocantins
O MPTO recomendou que a prefeitura de Porto Nacional instaure processo disciplinar contra um servidor suspeito de trabalhar como motorista de aplicativo durante o expediente.
Investigação apontou choque de horários em pelo menos 134 dias.
A Secretaria Municipal de Educação informou que instaurar processo disciplinar. O órgão disse que irá garantir ao servidor o contraditório e a ampla defesa.
Servidor público de Porto Nacional fazia corridas por aplicativo durante o expediente
Um servidor público da Prefeitura de Porto Nacional é investigado suspeito de realizar o transporte de passageiros por aplicativo de transporte durante expediente. O Ministério Público do Tocantins (MPTO) recomendou que a prefeitura instaure um processo administrativo investigar e, se necessário, notifique o funcionário para a devolução dos valores indevidos.
O caso começou a ser investigado após o MPTO recebeu uma denúncia de descumprimento de jornada de trabalho. O histórico de uma conta de aplicativo de transporte e as folhas de ponto do servidor foram examinadas e confrontadas.
A investigação se baseou em registros de fevereiro de 2023 a maio de 2026. Segundo o MPTO, o resultado apontou um choque de horários em pelo menos 134 dias de trabalho. A suspeita é de que o servidor realizou pelo menos 561 viagens e 267 horas e 30 minutos de atividade privada realizada dentro da jornada de trabalho na prefeitura.
Em nota, a Secretaria Municipal de Educação afirmou que irá adotar as providências para instauração do processo disciplinar. Informou que irá garantir ao servidor o direito ao contraditório e ampla defesa e que, caso a apuração comprove irregularidade e eventual dano ao erário, serão adotadas medidas administrativas e legais cabíveis, incluindo o ressarcimento de valores (veja a nota abaixo).
Prefeitura de Porto Nacional — Foto: Djavan Barbosa/Jornal do Tocantins
De acordo com o MPTO, a folha de ponto no município funciona em sistema de formulário manuscrito e que, entre fevereiro a maio de 2026, o investigado foi responsável por atestar a própria frequência.
Por isso, foi determinado um prazo de 15 dias para que a Prefeitura de Porto Nacional instaure o processo para apurar:
Identificar quem realizou o preenchimento das folhas do servidor;
Existência ou inexistência de autorização, comunicação ou ciência da administração quanto ao exercício de atividade privada;
Compatibilidade entre a atividade privada exercida e o regime de trabalho, jornada e as vedações aplicáveis ao cargo;
Conduta das chefias imediatas responsáveis pelo atesto das folhas de ponto em cada período;
A circunstância de o servidor haver atestado a própria frequência na condição de Diretor de Unidade Escolar;
Quantificação de eventual valor pago sem a correspondente contraprestação de serviço.
O município foi recomendado a avaliar a implantação de marcação eletrônica ou biométrica de frequência nas unidades da rede municipal de ensino, ou, que reveja o procedimento de preenchimento, conferência e atesto das folhas de ponto manuscritas.
Nota da Secretaria Municipal de Educação
A Prefeitura de Porto Nacional recebeu a recomendação expedida pelo Ministério Público do Tocantins e adotará as providências administrativas necessárias para a instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
Em etapa anterior, a Secretaria Municipal de Educação já havia sido notificada sobre a denúncia e solicitou esclarecimentos ao servidor citado. Na ocasião, foi apresentada defesa prévia, posteriormente encaminhada ao Ministério Público. Após a análise inicial, o órgão ministerial solicitou informações complementares diretamente ao servidor e, em seguida, expediu a recomendação ao Município.
O PAD garantirá ao servidor o direito ao contraditório e à ampla defesa. Durante o procedimento, serão analisadas as folhas de frequência, os registros mencionados pelo Ministério Público, a documentação apresentada pelo servidor e os demais elementos relacionados ao caso.
Neste momento, ainda não é possível afirmar se houve responsabilidade funcional ou prejuízo aos cofres públicos. Caso a apuração comprove alguma irregularidade e eventual dano ao erário, serão adotadas as medidas administrativas e legais cabíveis, incluindo o ressarcimento dos valores apurados.
A administração municipal tomou conhecimento da possível realização de atividade privada durante o expediente por meio da denúncia e do procedimento conduzido pelo Ministério Público. Os dados obtidos pelo órgão ministerial serão considerados na apuração, sem antecipação de responsabilidade antes da conclusão do processo administrativo.
Controle de frequência
Sem prejuízo dos mecanismos atualmente utilizados nas unidades escolares, a possibilidade de aperfeiçoamento do controle de frequência, inclusive por meio de sistemas eletrônicos ou biométricos, será objeto de avaliação técnica e administrativa pela Secretaria Municipal de Educação.
Legenda da foto,John Resta e sua esposa SylviaArticle Information
Author,Alice Cuddy
Role,BBC News
Published10 setembro 2026
Tempo de leitura: 9 min
O governo dos Estados Unidos qualifica o 11 de Setembro como "o mais grave ato criminoso ocorrido em solo americano na história moderna".
Mas um quarto de século se passou e o julgamento do suposto cérebro dos atentados ainda não foi iniciado. As famílias das vítimas receiam que o tempo para se fazer justiça esteja se esgotando.
O irmão de Tom Resta, John, e sua esposa Sylvia (que estava grávida de sete meses) são algumas das quase 3 mil pessoas que perderam a vida no dia 11 de setembro de 2001.
Naquele dia, sequestradores lançaram dois aviões contra o World Trade Center, em Nova York, e outro contra o Pentágono, no Estado da Virgínia. Um quarto avião caiu em campo aberto na Pensilvânia, após a resistência dos passageiros a bordo.
Poucos dias antes do 11 de Setembro, o casal preparava o quarto do seu futuro bebê, decorado com os personagens do programa infantil As Pistas de Blue (1996-2006). Eles sonhavam em ter um bebê e adoravam os filhos dos seus amigos e familiares.
No dia dos atentados, ambos trabalhavam como operadores financeiros no 92° andar da Torre Norte do World Trade Center.
"Depois de tanto tempo, ainda tenho um nó na garganta", declarou Resta, em lágrimas, à BBC. Mesmo depois de 25 anos, ele afirmou que o 11 de Setembro permanece na sua mente "de forma quase constante".
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Os atentados de 11 de setembro de 2001 deixaram quase 3 mil vítimas mortais
O medo de não viver para ver o julgamento
Resta viajou quatro vezes para a base naval americana de Guantánamo, no sudeste de Cuba, para presenciar as complexas audiências preliminares do julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, o suposto cérebro dos atentados, e dos demais acusados. Ele descreve o processo como "árduo e tedioso".
Durante a "guerra ao terrorismo" que se seguiu aos atentados do 11 de Setembro, foi instalada uma prisão militar naquela base naval. Ali, Mohammed (também conhecido pelas iniciais KSM) permanece detido há 20 anos, sem nunca ter sido condenado.
Os familiares das vítimas participam de um sorteio para assistir às audiências em uma sala de alta segurança, separados dos acusados por um grosso vidro, ao lado dos jornalistas.
O processo que precede o julgamento se prolonga há tanto tempo que já foi presidido por cinco juízes militares diferentes.
No mês passado, à medida que se aproximava o 25° aniversário dos atentados, houve muita atividade e um certo avanço. A data do julgamento de Mohammed foi marcada para junho de 2028.
Mas Resta conta que está preparado para novos atrasos. Considerando o tempo já transcorrido, alguns dos seus familiares receiam não viver o suficiente para presenciar a celebração do julgamento.
"Meu pai irá completar 98 anos em novembro e não acredito que ele espere chegar a ver o julgamento", lamenta ele.
"Tenho muitos familiares (tios e tias) que gostariam de estar presentes. Mas, particularmente, não acredito que meus pais esperem viver o suficiente."
"Tomara que todos os acusados ainda estejam vivos na época do julgamento", destacou ele. "Esta é uma grande preocupação."
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,Homenagem luminosa sobre o horizonte da cidade de Nova York no aniversário dos atentados, em 2024
Familiares de outras vítimas do 11 de Setembro compartilham os mesmos temores de Resta sobre possíveis novos atrasos no julgamento.
No início deste ano, Stephan Gerhardt empreendeu sua sexta viagem a Guantánamo.
Ele afirmou que, para ele, seria fundamental presenciar as condenações pela morte do seu irmão mais novo, Ralph, mas também preferia não precisar pensar mais neste assunto.
"Quero me concentrar nas recordações", segundo ele. "Ainda conservo o carro de Ralph. Tento restaurá-lo e deixá-lo impecável de novo..."
"Pouco tempo atrás, visitei meus pais e encontramos algumas coisas dele guardadas. O que sinto é algo como 'sim, são só coisas velhas, mas pertenceram ao meu irmão mais novo'."
Gerhardt destacou que sua "maior preocupação" era que Mohammed e seus supostos cúmplices morressem sem serem condenados.
"Eles estão envelhecendo", conta Gerhardt. "Não quero que eles morram sem terem sido condenados, pois seria uma injustiça com todos os familiares."
"Capturamos estas pessoas, mas nunca chegamos a julgá-las, nem condená-las pelo assassinato em massa dos nossos entes queridos."
Crédito,FBI
Legenda da foto,Khalid Sheikh Mohammed, no website das pessoas mais procuradas do FBI
Como a tortura complicou o caso do 11 de Setembro
Mohammed foi acusado de crimes como conspiração e assassinato. A ata de acusação menciona 2.976 vítimas.
Ele é acusado de idealizar o plano de treinamento de pilotos para lançar aviões comerciais contra edifícios e apresentá-lo ao líder do grupo extremista islâmico al-Qaeda, Osama bin Laden (1957-2011).
Anteriormente, ele próprio afirmou ter planejado a "operação do 11 de Setembro, de A até Z".
Mas, dias depois da definição da data do julgamento para 2028, o juiz militar desconsiderou as confissões feitas por Mohammed aos agentes do FBI na base de Guantánamo, depois de ser transferido para lá de prisões secretas da CIA, onde havia permanecido em detenção por anos.
Na sua decisão, o juiz descreveu o tratamento dado a Mohammed pela CIA como "extraordinário abuso físico e mental".
O juiz determinou que as confissões não foram voluntárias e não poderiam ser empregadas contra Mohammed durante o julgamento.
Especialistas destacam que a tortura a que Mohammed e seus supostos cúmplices foram submetidos foi a principal causa dos prolongados atrasos deste caso.
"Todos os aspectos do caso foram litigados em torno da questão da tortura", afirma a professora de direito internacional Kasey McCall-Smith, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido.
Ela destaca que os acusados foram submetidos a "anos de abusos", que incluíram a técnica de afogamento simulado (waterboarding) e posições de estresse.
Crédito,Tom Resta
Legenda da foto,John e Sylvia Resta, no dia do seu casamento
John Ryan, autor do livro America's Trial: Torture and the 9/11 Case on Guantanamo Bay ("O julgamento dos Estados Unidos: tortura e o caso do 11 de Setembro na baía de Guantánamo", em tradução livre), explica que a decisão do mês passado fez com que a promotoria perdesse a prova considerada mais sólida contra Mohammed. Mas não se sabe ao certo qual será o impacto neste caso.
Os promotores contam com outras provas, segundo Ryan. Elas incluem ligações telefônicas interceptadas e gravações secretas, mas não há garantias de que elas poderão ser apresentadas no julgamento.
"A equipe legal de Mohammed e as equipes de defesa dos demais acusados apresentarão moções para tentar excluir também algumas destas classes de provas", explica ele.
Durante o governo George W. Bush (2001-2009), os Estados Unidos admitiram ter utilizado "técnicas de interrogatório aprimoradas" para obter informações dos suspeitos e que esses métodos salvaram vidas, sem chegar a constituir tortura.
O presidente Barack Obama (2009-2017) proibiu esta prática no segundo dia do seu mandato.
Crédito,Getty Images
Legenda da foto,O então presidente americano George W. Bush no avião presidencial Air Force One, após os atentados
Os familiares das vítimas afirmam que a tortura a que os acusados foram submetidos cria até hoje obstáculos ao seu direito de justiça.
"Se não os tivéssemos torturado, as implicações legais teriam sido muito mais simples", afirma Gerhardt. "Provavelmente, eles teriam sido condenados à morte há muito tempo."
"Não posso controlar o que o governo fez e precisamos conviver com as consequências."
Julgamento ou acordo de culpabilidade?
Gerhardt e Resta viajaram para Guantánamo no início de 2025. Na época, Mohammed e dois outros acusados deveriam se declarar culpados, como fruto de um controverso acordo celebrado com promotores do governo americano. Com isso, eles evitariam um julgamento que poderia terminar com a pena de morte.
A BBC os acompanhou na base militar quando o processo de declaração de culpabilidade foi suspenso de última hora.
O governo americano argumentou que "privar o governo e o povo dos Estados Unidos de um julgamento público sobre a culpabilidade dos acusados e a possibilidade da pena capital" causaria danos "irreparáveis".
A disputa legal sobre a validade do acordo continua. Alguns familiares das vítimas consideravam que o acordo era o único caminho possível, enquanto outros o criticaram por ser muito indulgente e sem transparência.
Resta conta que apoiou o acordo para garantir que eles fossem condenados.
"Minha filosofia é que estes sujeitos não são o tipo de pessoas que deveriam andar livres pelas ruas", declarou ele. "Por mim, eles podem ficar exatamente onde estão. Só quero que sejam condenados."
O pai de Brett Eagleson, Bruce, morreu nos atentados. Ele expressou que preferia um julgamento completo a um acordo de declaração de culpabilidade.
"A questão não é tanto de opinar se estes prisioneiros devem viver ou morrer, mas acredito no sistema judiciário e que o processo funciona", ele explica.
"Acredito que um julgamento, a fase de apresentação de provas e a exposição pública do caso são a forma de trazer a verdade à luz."
Crédito,Brett Eagleson
Legenda da foto,Brett Eagleson tinha 15 anos quando seu pai, Bruce, morreu nos atentados de 11 de setembro de 2001
Capítulo que ainda não se encerrou
Brett Eagleson descreveu a situação em Guantánamo como um "desastre". Ele afirmou que havia decidido não assistir a nenhuma das audiências prévias ao julgamento a serem realizadas naquele local.
"Minha sensação geral é de traição por parte do governo americano e de extrema frustração", declarou ele. "Eles arruinaram completamente todas as fases deste julgamento."
Eagleson destacou que, 25 anos depois dos atentados, o 11 de Setembro continuava muito presente na sua vida. Mas, para o público em geral, o evento estava se transformando em "um acontecimento histórico".
"Acho que as pessoas simplesmente consideram que capturamos Bin Laden, já saímos do Iraque e que a guerra do Afeganistão terminou", explica ele. "Eles consideram que este capítulo já acabou."
Quando finalmente começar o julgamento frente ao tribunal militar de Guantánamo, calcula-se que ele dure cerca de um ano.
A professora Kasey McCall-Smith explica que o objetivo das audiências anteriores ao julgamento é determinar "quais provas serão admitidas e quais, não".
"Se isso for definido antecipadamente, o julgamento pode se desenvolver com mais agilidade", segundo ela.
Enquanto os familiares das vítimas se preparavam para mais um aniversário da morte dos seus entes queridos, Stephan Gerhardt expressou seu desejo de que o julgamento chegue ao seu término, para que ele não precise mais pensar em Guantánamo, nem viajar para lá.
"Não quero voltar para este lugar", afirma ele. "Quero viver minha vida e desfrutar dos meus hobbies e das recordações de Ralph."