domingo, 20 de novembro de 2022

Com maior taxa de desemprego e menor rendimento, mulheres negras são as mais prejudicadas no mercado de trabalho

 

Por Marta Cavallini, g1

 


Geni Aparecida de Oliveira e a filha Natalie Flaviane de Moura; negros são minoria em cargos de gerência e profissões que exigem qualificação — Foto: Celso Tavares/G1

Geni Aparecida de Oliveira e a filha Natalie Flaviane de Moura; negros são minoria em cargos de gerência e profissões que exigem qualificação — Foto: Celso Tavares/G1

Levantamento divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que as perspectivas de crescimento da economia neste ano, a retomada das atividades após a pandemia e a queda do desemprego não foram capazes de diminuir as diferenças entre trabalhadores brancos e negros. As mulheres negras são as mais prejudicadas.

"Esse movimento, apesar de positivo para o conjunto de trabalhadores, não se traduziu em trabalho formal, elevação de rendimentos e igualdade de oportunidades. Ao contrário, houve elevação da informalidade, da subocupação e queda dos rendimentos, efeitos sentidos mais intensamente pelo homem e pela mulher negra", informa a entidade.

O levantamento foi feito baseado nos indicadores da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os segundos trimestres de 2019 e 2022.

De acordo com o levantamento, as mulheres negras são as que mais sofrem para entrar no mercado de trabalho. Enquanto a taxa de desemprego geral ficou em 9,3% no segundo trimestre deste ano, entre as mulheres negras o indicador ficou em 13,9%. Já entre os homens negros a taxa é menor que taxa nacional: 8,7%.

Entre as mulheres brancas, o desemprego constatado foi de 8,9%; e os homens brancos, 6,1%, a menor taxa entre os grupos.

Comparando com os mesmos períodos de 2019 a 2022, é possível ver que as mulheres negras têm a maior taxa de desocupação em todos os trimestres. E os homens brancos mantêm as menores taxas de desocupação entre os grupos.

Rendimento médio

Da mesma forma, o rendimento médio real mensal é o menor entre as mulheres negras e o maior entre os homens brancos.

No segundo trimestre de 2022, enquanto o homem branco recebeu em média R$ 3.708 e a mulher branca R$ 2.774, a trabalhadora negra ganhou, também em média, R$ 1.715, e o homem negro, R$ 2.142. Ou seja, a mulher negra recebeu 46,3% do rendimento recebido pelo homem branco. Para o homem negro, essa proporção foi de 58,8%.

O Dieese ressalta, porém, que houve redução nos rendimentos em 2022 em relação aos demais trimestres analisados em todos os segmentos populacionais.

Entre os segundos trimestres de 2019 e 2022, a queda do rendimento médio real foi de 4,8% para o total de ocupados e maior entre os brancos (-7,6% para as mulheres e -5,4% para os homens). Entre os negros, a queda foi de 3,6% para os homens e de 0,8% para as mulheres.

"Importante destacar que a elevação da renda média registrada entre 2020 e 2019 se deveu a um efeito estatístico perverso: enquanto os trabalhadores que ganhavam mais foram atuar em home office, aqueles com menor remuneração perderam as ocupações, o que fez com que fosse reduzida a quantidade de rendimentos de valores menores", diz a entidade.

"As mulheres negras que, em geral, recebem os menores rendimentos, foram as mais penalizadas e ficaram sem renda durante o período mais intenso de isolamento social", completa.

Ocupação em trabalho desprotegido

Entre os ocupados em trabalho desprotegido, entre a população negra o índice era de 47,1%, mas entre as mulheres negras chegava a 47,5%, e entre os homens negros, a 46,9%.

Já entre os brancos, o índice geral era de 34,7% – 34,9% entre as mulheres e 34,5% entre os homens.

Segundo o Dieese, trabalhador desprotegido é aquele que está empregado sem carteira assinada, engloba ainda os autônomos que não contribuem com a Previdência Social e os trabalhadores familiares auxiliares.

Cargos de chefia

Já quando se fala em cargos de direção e gerência, novamente as mulheres negras têm o menor índice de ocupação nessas funções: 2,1%. Os homens negros têm 2,3%.

Entre as mulheres brancas, o índice chega a 4,7%, e entre os homens brancos, a 5,6%.

Subocupação

No índice de subocupação, as mulheres negras novamente são as que apresentaram as maiores taxas nos últimos quatro 2º trimestres.

São consideradas subocupadas por insuficiência de horas as pessoas que gostariam de ter jornada maior e têm disponibilidade para trabalhar mais se tivessem chance para isso.

No segundo trimestre de 2022, a proporção de subocupados em relação ao total de ocupados foi de 6,7%, menor que os demais anos. No entanto, novamente, a proporção das negras em subocupação no período foi a maior: 10%.

Já as mulheres brancas tinham índice de 6,7%. Para os negros ocupados o índice foi de 6,5%, e entre os homens brancos, de 4%.

Subutilização

Podem ser somados aos subocupados os trabalhadores em situação de desalento (ou seja, aqueles que querem trabalhar e deixaram de procurar por falta de recurso fincaneiro ou por acreditar que não vão conseguir uma colocação) e os desocupados com busca ativa. Dessa forma, é obtida a taxa de subutilização da força de trabalho.

No segundo trimestre de 2022, a taxa de subutilização foi a menor da série analisada (21,2%) e, no mesmo período de 2020, a maior (29,3%).

No entanto, em 2020 e 2021, de cada 100 mulheres negras, mais de 40 estavam subutilizadas. Em 2022, essa proporção ficou em 31,5%. Novamente, as mulheres negras têm a maior proporção de subutilização entre os trabalhadores. São mulheres que querem e precisam trabalhar mais, mas não conseguem.

Entre os homens negros, em 2020, a taxa ficou em 29,3%, maior do que a proporção de mulheres brancas subutilizadas (26,7%). Já no segundo trimestre de 2022, a proporção de mulheres brancas subutilizadas foi de 20,6%, e a de homens negros, de 19,7%.

Entre os homens brancos, a proporção caiu de 19,2%, no segundo trimestre de 2020, para 13% em 2022.

Mulheres negras têm maior participação em serviços domésticos

Entre as atividades econômicas, é possível observar a predominância das mulheres negras em Serviços domésticos, no Comércio e em Educação, saúde humana e serviços sociais.

No caso dos serviços domésticos, a proporção (16,4%) é quase o dobro em relação à participação das mulheres brancas (8,8%).

Já no segmento de Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, as mulheres brancas têm maior participação (14,3%) em comparação às negras (9%).

Entre os homens ocupados negros, a maior propoção estava no Comércio, Construção, Indústria e Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura. Entre os homens brancos, a participação predominava em Comércio, Informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas e Indústria.

Veja no quadro abaixo:

Estimativa de ocupados, segundo grupamento de atividade principal do empreendimento do trabalho principal no 2º trimestre de 2022 (em %) — Foto: Reprodução/Dieese

Estimativa de ocupados, segundo grupamento de atividade principal do empreendimento do trabalho principal no 2º trimestre de 2022 (em %) — Foto: Reprodução/Dieese

Trabalho sem carteira é maior entre negros

As mulheres negras tinham maior participação em vagas sem carteira assinada em comparação com as mulheres brancas, assim como os homens negros ante os brancos. Já nos trabalhos com carteira assinada, o cenário se inverte.

Além disso, 12,6% das ocupadas negras eram trabalhadoras domésticas sem carteira - praticamente o dobro das mulheres brancas (6,4%).

Até mesmo no setor público, as mulheres negras têm a maior proporção sem carteira de trabalho assinada.

Entre os empregadores, as negras têm a menor participação entre os demais grupos pesquisados e abaixo da metade (1,9%) do índice geral (4,3%).

Veja no quadro abaixo:

Distribuição dos ocupados por posição na ocupação no 2º trimestre de 2022 (em %) — Foto: Reprodução/Dieese

Distribuição dos ocupados por posição na ocupação no 2º trimestre de 2022 (em %) — Foto: Reprodução/Dieese

Proporção de negros e brancos na população

Dados do 2º trimestre de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, mostram que a população negra corresponde a 55,8% dos brasileiros.

Entre os 98,2 milhões de ocupados, 53,3 milhões eram negros (54,3%) e 44,9 milhões eram brancos (45,7%).

As mulheres negras eram 21,9 milhões e as brancas, 20,1 milhões. Já os homens negros eram 31,3 milhões e os homens brancos, 24,8 milhões.

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