sábado, 22 de agosto de 2026

Saúde mental no trabalho começa antes do adoecimento

 


Entre o silêncio e a explosão, existe um espaço que precisa ser aprendido: o da consciência sobre o que sentimos

Por
Angélica Banhara

 Atualizado


Estresse no trabalho
Estresse no trabalho Magnific

Durante muito tempo, falar de saúde mental no trabalho significava, quase sempre, falar do que acontecia depois que alguém adoecia. A pessoa se afastava, procurava ajuda, entrava em crise. Só então a empresa percebia que havia um problema. A discussão provocada pela NR-1 torna a gestão de riscos psicossociais uma exigência para as empresas brasileiras. Mas, como lembra o psicólogo Rossandro Klinjey, reconhecer o risco é apenas o começo. É aí que entra o letramento emocional.

— É sobre aprender a perceber e nomear o que sentimos antes de agirmos sobre o sentimento. Letramento emocional é uma espécie de alfabetização, não um talento. Ninguém nasce sabendo decifrar seus sentimentos e emoções. Na outra ponta, o analfabetismo emocional não é sentir demais: é não saber nomear o que sente — explica.

A diferença parece sutil, mas é enorme. Em um ambiente de trabalho, uma pessoa que não consegue reconhecer a própria frustração pode transformar uma cobrança em uma explosão. Outra pode engolir sucessivas situações de desconforto até o limite. Entre o silêncio e a explosão, existe um espaço que precisa ser aprendido: o da consciência sobre o que sentimos.

Segundo ele, o analfabetismo emocional também aparece nas relações profissionais.

— Nas empresas, as pessoas alternam entre dois extremos: engolem tudo ou explodem quando não aguentam mais. E há um agravante: muitas vezes, quem está no comando não percebe que está levando sua própria ansiedade para a equipe.

Para Klinjey, o líder é o principal fator de risco ou de proteção psicossocial. Um chefe pressionado, inseguro ou angustiado pode transformar sua tensão em cobranças excessivas, ironias ou reações desproporcionais. É uma imagem poderosa porque mostra que saúde mental não se resolve apenas com palestras, formulários ou programas bem desenhados no papel.

A norma cria uma obrigação, mas o letramento cria a capacidade.

Isso não significa transformar o chefe em terapeuta, nem atribuir à empresa toda a responsabilidade pela saúde mental dos funcionários. Ao contrário. Klinjey lembra que existe uma responsabilidade individual e outra relacionada ao ambiente em que vivemos e trabalhamos. A empresa precisa cuidar das condições que podem favorecer o sofrimento, enquanto cada pessoa também precisa desenvolver recursos para lidar com suas emoções.

O ponto de partida deve estar nas lideranças. Afinal, o comportamento de quem está no comando se espalha pela organização.

— Como o líder tem um efeito “metastático”, positivo ou negativo, o ideal é começar por eles, pois impactam muita gente. Mas o trabalho não pode parar aí. É importante ouvir também quem está na ponta, porque outros funcionários podem perceber sinais de sofrimento antes que eles apareçam em relatórios ou estatísticas.

Há ainda uma armadilha. O vocabulário da psicologia se popularizou, o que é positivo, mas nem sempre é utilizado corretamente. Nem toda cobrança é tóxica. Nem todo feedback é violência. Cumprir uma meta, entregar um relatório ou corrigir um erro faz parte da vida profissional. O letramento emocional também serve para diferenciar uma exigência legítima de uma agressão.

A grande contribuição do letramento emocional é criar espaço entre o que sentimos e o que fazemos. E, nas empresas, isso pode significar a diferença entre uma dificuldade que é percebida e conversada a tempo e um sofrimento que só se torna visível quando chega na forma de afastamento, pedido de demissão ou adoecimento.

A NR-1 ajuda a colocar o tema na agenda. Mas nenhuma norma, sozinha, muda a maneira como as pessoas se relacionam. Para isso, é preciso transformar obrigação em prática. E começar a entender que, antes de sermos cargos, metas ou funções, somos pessoas.

Próxima

Nenhum comentário:

Postar um comentário