quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Homem é suspeito de assediar mais de 70 psicólogas em consultas forjadas; polícia investiga

 

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Homem é suspeito de assediar mais de 70 psicólogas em consultas forjadas; polícia investiga
Lucas Dornelles e o print de uma conversa dele com uma psicóloga Instagram / Reprodução

Por Ana Carolina Torres — Rio de Janeiro

 


Em maio deste ano, a psicóloga Liliany Souza, de 37 anos, fez uma postagem em seu perfil no Instagram que abriu uma "caixa de pandora" : ela denunciou um homem que se passava por paciente e acaba assediando as profissionais durante consultas on-line e já chegou a se masturbar em algumas delas. Mais de 70 mulheres contaram terem sido vítimas do sujeito, que se apresenta como Lucas Silva Dornelles, de 34 anos, e moraria no Rio Grande do Sul.

De acordo com os relatos recebidos por Liliany, o suspeito já age há pelo menos dois anos e fez vítimas em 12 estados. Cinco das profissionais já foram ouvidas pelo Ministério Público de São Paulo, numa denúncia coletiva, e também já há uma investigação aberta pela 3ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), também em SP.

— Ele dava o nome completo. Consegui os dados com as primeiras vítimas. No início, preenchia a ficha (de paciente). A minha não preencheu e de muitas outras também — contou Liliany.

Ela teve contato com Dornelles em fevereiro deste ano. O suspeito procurou a psicóloga num domingo, por volta das 22h30, pedindo insistentemente uma consulta de urgência. Em seu relato, contou ter uma deficiência física e ter dificuldade em ser olhado pelas mulheres:

— A gente acredita que pode ser um paciente em crise. Mas fui juntando os pedaços e o que me salvou é que eu cobro a primeira consulta. Pedi que me preenchesse a ficha e mandasse o comprovante de pagamento que ai, então, marcaria a consulta. Ele começou a falar ofensas. Disse que mostrava meu peito na foto para seduzir, me chamou de vagabunda e de tudo mais que você possa imaginar.

A psicóloga Liliany Souza expôs o caso em seu perfil numa rede social — Foto: Arquivo pessoal

A psicóloga Liliany Souza expôs o caso em seu perfil numa rede social — Foto: Arquivo pessoal

Nervosa, Liliany bloqueou e denunciou Dornelles, perdendo, assim, as mensagens que ele enviou. Ela fez seu primeiro relato sobre o ocorrido no Instagram. Em abril, a psicóloga foi chamada para participar de uma roda de conversa on-line organizada pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. Na ocasião, conheceu Letícia Martins de Oliveira, de 27 anos, também assediada pelo suspeito.

— Fiz outro post sobre o assunto no início de maio e viralizou. Nos comentários, um relato pior que o outro — disse Liliany.

Nessa segunda postagem, uma pessoa enviou nos comentários um print da conversa com Dornelles. A psicóloga o reconheceu na hora. E seguiu recebendo relatos de abusos cometidos pelo homem:

— O que fica muito claro é que não se trata de uma patologia. É um homem numa sociedade patriarcal e machista que está atacando mulheres em seu local de trabalho.

'Percebi que estava se masturbando'

Letícia Martins de Oliveira foi procurada por Dornelles em julho de 2021, com as seguintes mensagens: "Você atende on-line?", "Tenho deficiência e me sinto excluído" e "Só recebo dia 20, dá para iniciar antes as sessões?". Ela contou que achou o primeiro contato atípico, mas respondeu do mesmo modo como responde possíveis clientes, esclarecendo sobre a maneira como trabalha:

— Ofereci um horário para uma primeira sessão no dia seguinte. Ele insistiu que fosse no mesmo dia, mas mantive o mesmo horário. Ele concordou.

A psicóloga fez duas chamadas de vídeo com o suspeito:

— Acho importante frisar que não foram consultas ou sessões. O agressor simulou ser um paciente para conseguir seu objetivo, que é se masturbar enquanto fala com uma mulher. Exatamente por nós, psicólogas, acharmos que se trata de uma consulta carregamos ainda mais culpa e demoramos a denunciar, com medo da quebra de sigilo. Mas nesse caso não há essa configuração uma vez que ele faz isso em série com o único objetivo de assediar, e não de fato iniciar um processo terapêutico.

De acordo com Letícia, na primeira chamada o homem alegou que precisava ficar deitado por causa de sua deficiência física.

— Essa é uma das principais características do modus operandi: o assediador usa de alguma estratégia para caracterizar urgência, captar a atenção da profissional ou manipular a cena para que possa fazer o assédio. Eu segui com algumas perguntas iniciais, após questioná-lo sobre isso. Percebi que ele estava se masturbando quando começou a relatar questões de cunho sexual, pelas expressões faciais, o pouco que conseguia ver do movimento dos braços, e a fala ofegante. Após isso encerrei a sessão, me sentindo confusa, culpada e enojada — lembrou a psicóloga.

Perseguição nas redes

Letícia relatou ter compartilhado o ocorrido com alguns colegas. Com medo de ser negligente e ainda acreditando em se tratar de uma pessoa em busca de iniciar uma terapia, ela o atendeu uma segunda vez:

— Porém, dessa já estava atenta caso isso ocorresse mais uma vez. E não demorou para que acontecesse : ele voltou a se masturbar relatando questões de cunho sexual. Após eu apontar o que estava acontecendo e esclarecer que esse não era o papel de uma psicoterapia, ele ficou irritado e encerramos a chamada. Mais tarde, ele ainda insistiu em marcar outra sessão, mas cessamos os contatos.

Segundo ela, em fevereiro de 2022, quase 8 meses depois, duas colegas psicólogas a procuraram alertar sobre essa mesma situação. As profissionais viram que o suspeito seguia em seu perfil no Instagram diversas profissionais, inclusive Letícia.

— Dessa forma, nos reunimos para fazer uma denúncia. No início éramos sete profissionais que tinham sido assediadas por ele, outras colegas ele chegou a xingar, mandar mensagens em diversas redes quando elas bloqueavam o número — disse.

A psicóloga mandou um recado para outras profissionais:

— A colegas que passarem por situações semelhantes, não tenham medo de denunciar. Recomendamos sempre que seja feito um boletim de ocorrência e comunique ao CRP de seu estado para mais orientações.

Procurada pelo GLOBO, a Polícia Civil de São Paulo informou, por meio de nota, que "diligências estão em andamento visando ao esclarecimento do fato. Detalhes serão preservados para garantir a autonomia do trabalho policial".

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